segunda-feira, janeiro 02, 2006

Os Assassinos moram na Av. Estados Unidos da América

"No humor também há espaço para os assuntos sérios, tal como neles existe sempre espaço para o humor"


" Passaram o ano, ainda festejavam e perderam a vida, eram 04h30, numa avenida de Lisboa. Foi este o destino trágico para dois homens, de 22 e 29 anos, ontem, no cruzamento das avenidas Estados Unidos da América e Gago Coutinho, em Lisboa. Da violenta colisão com outro carro, resultaram ainda três feridos graves" in Correio da Manhã de 02.01.2006.

É uma artéria que se denomina de Av. Estados Unidos da América, numa cidade chamada Lisboa. Esta Avenida é povoada por habitantes inchados de um orgulho bacoco (saloio como os saloios que eles tanto criticam) por morarem nessa mesma Avenida.
É claro que todos os habitantes de outras tantas Avenidas e Ruas desta cidade se podem gabar do seu local de residência. Mas os da Avenida Estados Unidos da América não só têm a certeza de viver num sítio abençoado por Deus Nosso Senhor como reclamam o direito divino de constituírem um Feudo Jurisdicional sobre a “sua” Avenida.
Ali ninguém mete a mão!!!
Muito menos a Câmara Municipal de Lisboa.
Imagine-se que há uns anos atrás a Câmara Lisboeta pensou em construir um viaduto ou um túnel para desnivelar o cruzamento com a Av. Gago Coutinho na construção do prolongamento da Av. Estados Unidos da América.
Logo se levantou um coro de protestos enorme, gigantesco, um Tsunami constituído por gente “importante” da sociedade que ameaçava abater-se sobre a Autarquia Lisboeta. Doutores, Engenheiros, Advogados, Políticos, Ex-políticos, Donas de Casa dos chás da cinco e os habituais desejosos ocupantes do espaço noticioso formaram a armada invencível contra o desnivelamento!!
Porquê??
Nunca consegui perceber!!
Os argumentos, se bem lembro, passavam por:
1- Perigo para os peões devido a um possível aumento da velocidade de circulação.
É digno de registo no anedotário nacional este argumento. Pensando em todos os túneis e viadutos que existem em Lisboa é de pensar que os números de mortos e feridos graves por atropelamentos na zona onde estão implantados seja comparável ao da Guerra do Iraque. Ou se calhar igual ao número de vítimas de atropelamentos que, desde que me lembro, ocorrem na Av. Estados Unidos da América relacionados com os peões (normalmente pessoas idosas) que atravessam em locais suicidas e depois queixam-se dos automobilistas.
2- Descaracterização urbanística da Avenida.
Aqui não posso deixar de dar alguma razão aos habitantes da Avenida. Realmente, se o viaduto ligasse a Estados Unidos da América ao Restelo, ou à zona nobre de Telheiras ou à Lapa, ainda vá lá!! Agora, ligar a “nobre” Avenida Estados Unidos a Chelas????
3- Qualquer outra que eles imaginassem para poder protestar.
Em relação a esta, nem comento!!

E, perante tamanho coro de protestos, a Câmara de Lisboa recuou cobardemente.
E não desnivelou! Instalou semáforos!!

Desde a abertura do prolongamento da Av. Estados Unidos da América que ocorrem semanalmente acidentes gravíssimos, como era de prever desde o início.
Diversas vítimas mortais e feridos graves são o resultado do egoísmo cego, da falta de cultura cívica e do egocentrismo absolutamente patético de umas dezenas de cidadãos que se reclamam acima das instituições e dos restantes mortais!!

Da minha parte, como cidadão e lisboeta, declaro que considero todos esses senhores os principais responsáveis pelas vítimas do fatídico cruzamento da Av. Estados Unidos da América com a Av. Gago Coutinho.
Declaro ainda que, até à data, ninguém meu conhecido, amigo ou familiar esteve envolvido em acidentes neste cruzamento.
Simplesmente move-me a revolta!!
Tenho ainda a esperança que os feridos, ou os familiares e amigos das vítimas mortais coloquem em tribunal todos aqueles que protestaram na altura contra o desnivelamento. Existem imagens televisivas, artigos de jornais, excertos radiofónicos para os identificar.
E que eles tenham o Inferno que merecem é o meu desejo!!!

3 comentários:

André disse...

Primeiro de tudo, tens razão!; Segundo, e como habitante de Alvalade, devo dizer que a Utopia não fica só na Av. dos E.U.A. mas em todo o Bairro de Alvalade. E se nesse caso a pressão exercida pelos moradores deu barraca e foi mal feita, em muitos outros é de facto prova (ainda que num universo pequeno) que os portugueses se sabem unir e pressionar; Terceiro, a maior parte dos gajos de Alvalade pensam que valem mais do que os outros: São uma cambada de cocós! Mas se é isso - o ser cocó - que é necessário para nos protegermos das merdas que fazem nos outros Bairros, então aceito de bom grado. Eu também irei ser um cocó!!!

João Pinto disse...

Meu caro amigo André! Obviamente que sou totalmente a favor da união dos cidadãos no sentido de se defenderem de acções que possam colocar em perigo o seu bem estar e qualidade de vida. Sempre afirmei que um dos maiores problemas dos portugueses é a ausência quase total de uma sociedade civil forte e capaz de se mobilizar através de objectivos concretos e bem definidos. Em relação à questão do desnivelamento o que mais me chocou na altura foi a absoluta falta de consciência cívica das pessoas envolvidas nos protestos e a ausência de alguma abertura de espirito para obter um consenso em relação ao assunto. Aliás, tenho a percepção de que, com o desnivelamento, seria resolvida a situação do trânsito e da circulação dos peões na EUA. Curiosamente, não me lembro de assistir a protestos contra a construção do empreendimento que fica na esquina da EUA com a Gago Coutinho e que, na minha opinião, representa uma degradação urbanística da zona.

Anónimo disse...

Por acaso alguém ouviu os moradores da avenida dos estados unidos insurgirem-se contra a ponte chelas-barreiro? Pois é, talvez fosse bom ter agora o desnivelamento na avenida. Evitavam-se mortes desnecessárias num dos pontos negros do trânsito de Lisboa, e não teriamos os milhares de carros que irão desaguar nesta avenida sem terem escoamento (pelo menos até ver, mas a experiência dos eixo norte-sul, cril, etc, deixam pouca esperança)... Enfim, o egoísmo típico do povo português, de vistas curtas, claro apenas para o seu quintal...