quarta-feira, janeiro 31, 2007

Há malucos no meu prédio

No prédio onde vivo há muitos cães.

Eu sei isto não só porque os vejo na rua a passear; como também os ouço ao fim da tarde - hora a que os donos chegam - quando se tornam histéricos; e finalmente porque o meu cão cheira todas as portas cujos apartamentos contêm um ou mais cães.
Durante cerca de cinquenta anos, o meu prédio teve elevadores de caixa aberta. Elevadores antigos com porta em harmónica de ferro.
Estes elevadores, apesar de bonitos, não eram amigos da privacidade elevadorina. Qualquer passageiro numa viagem ascencional era observado do exterior. Isto durante muito tempo impediu os inquilinos no sobe-e-desce diário de se comportarem com a liberdade que quatro paredes e algum isolamento permite.
O meu prédio agora é moderno. Possuímos elevadores de caixa fechada.
Infelizmente estes elevadores só restringem o sentido visual, não tanto o auditivo...

No prédio onde vivo há muita gente maluca.

Eu sei isto porque sempre que alguém com um cão se mete num elevador, vai a viagem toda a falar com ele. E apesar destes não responderem, os donos não se fazem rogados.
As conversas são sempre muito estimulantes:
- Quem é o meu gordo?
- Estás com fomeca?
- Que grande xixizada e cocozada...ahnnn???
- Lindo menino, senta!
- Quem é que vai comer um belo prato de carninha? Quem é? Quem é? Ah pois é!...Não! Senta! Estás a sujar-me as calças todas...porra!
Não quero que pensem que me ponho a escutar os vizinhos no elevador, mas às vezes acontece estar presente.
Eu e o meu cão vamos sempre pelas escadas, assim não fazemos figura de parvos.

No prédio onde vivo é só gente doida que fala com cães. Há muitos cães. E muita gente doida.

Sempre que ouço algum maluco a falar com o seu cão no elevador, não consigo evitar um olhar cúmplice para o meu cão. Rimo-nos sempre muito desta gente maluca que mora no meu prédio.

Os filtros do poder

Já não são só os livros, as peças de teatro e os concertos inflacionados que limitam a cultura geral a apenas um ou dois estratos sociais; também agora a programação televisiva (num canal público) de interesse nacional, cultural e político, é remetida para horários proibitivos para quem trabalha de sol a sol, suadamente, que é o caso da maior parte da população portuguesa.
Até quando as classes sociais baixa e média baixa terão que sofrer este tipo de discriminação positiva?
Coitadinhos, fartaram-se de trabalhar. Eles depois do trabalho não querem estar a pensar, querem é vegetar à frente da sua telenovelazinha ou futebolzinho. Não os vamos chatear com estas coisas chatas. Aliás, de certeza que ou não votam, ou votam naquilo que os "mais esclarecidos" ou os grupos de pressão lhes indicarem.
A ignorância é filha da pobreza.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Os Nãos e os Sins

Acho que os dois grandes problemas dos defensores do 'Não à despenalização do aborto...' é a falta de imaginação e a simpatia mal disfarçada pelos sistemas fascistas.
A falta de imaginação, porque julgam que conseguem prever todos os cenários que levam uma mulher a abortar, e assim descartá-los um a um com inteligente retórica.
Acontece que quem de facto tem alguma imaginação, sabe que é perfeitamente irrazoável tentar prever todos os cenários; e sendo assim - pró-vida ou não -, deixa a decisão à mulher e não a pré-condena ou rotula - actos caraterísticos dos melhores regimes totalitaristas ou com aspirações a isso.
Nas grandes questões sobre os valores humanos, na generalidade, distinguem-se logo os simpatizantes pelos regimes opressivos e punitivos daqueles que acreditam na liberdade e na moral mais fundamental - aquela que está e não está escrita em nenhum livro -, a moral humanista.
Os Nãos são os fascistas e os Sins, humanistas.
Uma coisa é não concordarmos com algo e não o fazermos, outra muito diferente, é não concordar e obrigar os outros - independentemente dos seus valores - a não fazê-lo. O Não quando auto-aplicado é uma liberdade dos valores individuais; O Não imposto a todos é limitador da liberdade de cada um.
Já o Sim, deixa ao critério de cada um a escolha dos seus valores. Não impõem nada. O Sim não erradica o Não, mas o Não sim.
A liberdade do Sim não significa um mundo sem lei nem roque, mas um mundo sem leis opressivas e com regras inteligentes.
Como o problema dos Nãos é orgânico - não conseguem utilizar a imaginação nem acreditam no livre arbítrio -, não acredito que mudem de opinião. No entanto espero que cada vez hajam menos Nãos e mais Sins.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Morte, impostos e melgas

As indirectas conseguem ser frustrantes quando o interlocutor faz-se de parvo ou é.
Seria de esperar que perante uma pergunta tipo - O que é que fazes este fim-de-semana? Vais estar em casa? - a que fosse dada a seguinte resposta - Ahnnnnnnnnnn.... vou! Quero dizer, tenho que fazer uma coisa, mas não sei a que horas nem a que dia. -, fosse o suficiente para que se subentendesse que - Realmente vou estar em casa, mas não me apetece aturar-te.
Acho que um Ahnnnnnnnn demorado já demonstra toda a hesitação que se sente quando não se está receptivo à companhia; Já a desculpa de fazer algo (coisa não identificada), algures (sítio não identificado), não agendado (tempo não descrito), é o remate perfeito no caso de incompreensão do Ahnnnnnnn.
Claro que a reacção que recebi foi um - Não te preocupes, eu apareço ao fim da tarde. A essa hora já deves estar em casa. - para meu grande aparvalhamento. O que dizer perante uma afirmação destas?
E depois eu sou um gajo que fica a matutar e a prevêr que o eventual "convívio" irá ser uma seca. Isto é o suficiente para me aborrecer durante horas, às vezes durante dias.
Os americanos dizem que há duas certezas na vida: a morte e os impostos, e por esta ordem de desgraça; Eu gostava de juntar mais uma e fazer esta expressão ficar com um ar mais português: a morte, os impostos e as secas.
Quando penso nas coisas que me atormentam e na quantidade de tempo que dispenso a cada uma, chego à conclusão que o Além e o IRS não chegam sequer perto da melga que eu sei que irei aturar mais cedo ou mais tarde.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Porcaria com aspas

- Epá! Esqueci-me dessa porcaria. Porcaria entre aspas, claro!
Quer dizer, um gajo empresta qualquer coisa com todo o gosto - e quero colocar especial ênfase na palavra gosto; A intenção é partilhar com um amigo aquele objecto sobre o qual nutrimos um intenso prazer; Queremos divulgar ao mundo, começando com as pessoas que nos são próximas, a existência daquela coisa tão gira. E depois, não só se esquecem de trazer o ítem, como ainda o rotulam de porcaria. Mas atenção, porcaria entre aspas.
Mas que outro sentido poderá ter a palavra "porcaria"? Poderá ser uma porcaria que não cheire mal? Ou uma porcaria com um formato engraçado mas com um cheiro um poucochinho desagradável? Será uma coisa que ao princípio dá para entreter mas depressa se torna saturante? Ou a "porcaria" é apenas uma palavra carinhosa como xixi, cócó e ranhoca? Talvez uma inversão de qualidades, em que a "porcaria" é uma coisa de extrema utilidade, ao mesmo tempo que lúdica e didáctica? Por outro lado, se depois me dizem que sou um gajo porreiro, eu só posso é desconfiar e exclamar:
- O que é que queres dizer com isso? Estás a insinuar que sou um animal?
Portanto, vamos lá a chamar as coisas pelos nomes, e parar de rotular tudo o que eu empresto de porcaria com aspas.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Nacionaquê?

Eu não tenho uma pinga de nacionalismo no meu corpo. Por mim queimavam-se as bandeiras em todo o globo.
Ao contrário, a maior parte da população mundial, europeia e portuguesa, vive num marasmo nacionalista.
Como me adapto bem às incongruências ideológicas, não me ralo muito. O máximo que faço para distilar o pouco que resta da minha repulsa, é escrever neste blog. E é uma incongruência ideológica ao quadrado que venho agora vomitar.
Não percebo muito (quase nada) de futebol e de atletismo, mas sei mais ou menos o que é uma selecção nacional e um atleta nacional.
Na selecção temos um jogador brasileiro que mudou à relativamente pouco tempo para a nacionalidade portuguesa para assim se poder mover melhor no cenário futebolístico europeu. E parece que não vai ser um caso isolado, pois tenho ouvido ultimamente que mais um jogador brasileiro pretende obter a nacionalidade portuguesa.
No atletismo temos o Obikwelu - penso que seja assim que se escreve -, não sei bem de onde é mas agora é português. Eu sei que o é porque quando ele ganha põem o hino de Portugal para grande alegria dele.
Ora, eu não tenho nada contra estes indivíduos ou os seus países de origem, mas parece-me um pouco estranho que ninguém fale sobre estas situações tão pouco nacionalistas. É que vai contra a ideia toda.
Aparentemente não somos só nós que importamos mão-de-obra nacional, outros países da Europa também o fazem. Se calhar já todos o fazem...
É óbvio que a ideia original de competidores representantes de um país está corrompida. A meu ver, devia-se esquecer as competições entre países e passar directamente para as pura e honestamente mercantilistas.
O melhor é guardarmos os nacionalismos para as guerras. Ah! Espera! As guerras também subcontratam.

Nota: O Eusébio é um caso à parte. Ou como dizia Salazar, que como sabem é um dos dez melhores portugueses, "O Eusébio é património nacional".

Bexiga futurista

A única coisa que me impede de dormir mais no fim-de-semana é a capacidade da minha bexiga.
Uma vez levantado, é-me muito difícil voltar a adormecer - isto no fim da manhã, claro!
Eu bem me aguento o máximo possível, mas a corrida para a casa-de-banho é inevitável. E o consequente despertar pelo choque fisiológico, só é apaziguado por um longo duche.
Pensando melhor, a bexiga é inconveniente em muitas outras ocasiões, as quais me excuso de descrever, uma vez que, tenho a certeza, é um desagrado partilhado por todos os seres humanos que possuem uma.
Já pensei muitas vezes no que vou pedir quando a medicina estiver avançada o suficiente para substituir qualquer parte do corpo. E a primeira coisa é uma bexiga com maior capacidade e timer - assim posso marcar as horas mais convenientes para o despejo. E também um alarme para as noites de consumo alcoólico, para quando estiver perto de exceder o limite da capacidade de armazenamento.
BIP! BIP! BIP! DESPEJE DOIS LITROS!
Só espero que não ponham o botão do reset junto à próstata.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Tu ou você?

Se esquecer-me dos nomes e caras das pessoas frequentemente me obriga a utilizar a expressão "então pá!" demasiadas vezes, não saber como tratar certas pessoas mais velhas em que pessoa, obriga-me a outros artifícios mais elaborados.
Claro que já me ocorreu perguntar se deseja ser tratado por você ou por tu. Mas normalmente acanho-me e não pergunto.
A razão porque não pergunto é porque levo muito tempo a decidir-me se o devo fazer. Acredito que passados uns meses (pelo menos) de convívio, a outra pessoa só poderia achar estranho o timing da dúvida.
A minha indecisão inicial surge do medo da resposta ser um formal "você", o que me levaria a evitar a pessoa por causa da minha aversão à frieza do tratamento.
A tentativa ocasional também está fora de questão. Poderia levar a uma reacção que me deixasse de boca aberta demasiado tempo.
Deduzir é demasiado arriscado. As pistas nunca são suficientes, e as poucas que existem são contraditórias.
Acabo por não perguntar.
Uma relação nestes moldes não é impossível, só tenho que evitar fazer perguntas directas. Assim utilizo muito a primeira pessoa do plural, ou começo a frase com o indistinto cnhanhadabadabadaba...

As novidades

Então, novidades?
Não sei porquê mas não consigo responder a esta pergunta. Pelo menos não consigo lembrar-me de nenhuma novidade para relatar quando me pedem assim a seco.
Para mim a novidade é uma coisa importante, como ter um filho, escrever um livro ou plantar...não! Ganhar no totoloto. Algo de novo tem que ser de grande impacto.
Como a minha vida é razoavelmente mediana, não posso considerar nenhum dos acontecimentos diários - que até me satisfazem - como uma novidade.
Parece que o facto de eu responder que não tenho novidades, que está tudo na mesma, não só não satisfaz a generalidade das pessoas, como também parece as irritar.
Não digo que se erradique a pergunta, mas pelo menos que não se espere sempre por uma resposta. Quero dizer, novidades mesmo novas, mesmo novinhas, é difícil. Isso eu sei.
Até porque as novidades normalmente não esperam para aparecer só quando alguém pergunta por elas. Na verdade elas têm a mania de aparecer de repente, inesperadamente. Posso até dizer com alguma certeza que elas aparecem, desagradavelmente, antes sequer de conseguirmos pronunciar a pergunta. O que acaba por anular a eficácia desta, uma vez que raramente é utilizada.
- Olá!
- Olá! Já sabes da última?
- Mas nem sequer me deixas perguntar pelas novidades? Estás a quebrar o protocolo.
- Deixa-te de coisas...
- Só estou a dizer que ao menos deixavas-me utilizar o "Então, Novidades?". Assim não estou a ver para que raio serve esta pergunta.
- Mas deixas-me contar ou não?
- Conta! Mas para a próxima espera que te perguntem por elas, é que senão também deixo de as perguntar. E depois vais pensar que não me interesso pela tua vida...
- Cala-te! Já não te conto nada! Chato do caraças!
- ...Então, novidades?

De volta ao papel

Quando estou em casa, no sofá, tenho sempre montes de ideias de textos para o blog.
Infelizmente, como sou preguiçoso, não me apetece sair do sofá, ligar o PC e começar a escrever. Este tem sido um grande impedimento na minha produção escatológica.
A solução que arranjei, demorei um pouco a chegar a ela. Mas cheguei!
Neste momento (no momento em que isto foi escrito) de criação, estou no sofá a escrever num caderno. Sim, estou a utilizar papel e caneta.
Estou a dar cabo do pulso; isto significa que esta noite não vou poder "ver" nenhum filme pornográfico.
De qualquer maneira, estou satisfeito. Já posso comentar o que quiser sem levantar o rabo do sofá. Acho que estou a ficar com escaras...

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Ser pai é...

Se o pai biológico desta criança de Torres Novas não fosse um tipo tão nojento acho que a história teria outros contornos.
Claro que a criança, depois de todo este tempo com os pais biológicos, e especialmente com a frágilidade dos cinco anos, deve ser protegida e o seu ambiente deve permanecer estável. É o que eu e, creio, a maior parte da população portuguesa pensa.
Mas e se o pai fosse um tipo decente, casado, com uma boa casa e ambiente familiar, não tivesse pedido nenhuma indemnização aos pais adoptivos e permitisse um acompanhamento do crescimento da criança por estes? E se o pai nunca tivesse chegado a saber que o era até agora?
E ao contrário, e se existisse a hipótese de os pais adoptivos terem feito qualquer coisa de muito errada? Ninguém tem visto a criança ultimamente, pois não? Quem é que põe as mãos no fogo por este casal?
Acho que, perante estes dois cenários, o caso mudava drasticamente de figura aos olhos da população, no entanto, legalmente seria a mesma coisa.
A lei tem que ser abstracta, mas cada caso é um caso.
Se nesta história existe alguém decente - considerando que as coisas são o que parecem -, esses são os pais adoptivos: o pai está decidido a passar pelo que for preciso para proteger a filha e a mulher, está disposto a passar seis anos na prisão. Acho que qualquer pai faria o mesmo, mas para o fazer é preciso SER pai; A mãe está disposta a viver escondida das autoridades o tempo que for preciso, e com tudo o que isso implica. Acho que qualquer mãe faria a mesma coisa, mas para o fazer é preciso SER mãe.
Pelo outro lado, os indecentes, os ímpios, os mercenários - já considerado que as coisas são o que parecem -, tudo sinónimos, neste caso, de pai biológico e advogado do Diabo. O pai b., aparentemente, tem um objectivo muito pragmático, seja ganhar dinheiro ou pôr a filha a render; O advogado do Diabo, um tipo com um discurso desonesto e hipócrita. Este é um daqueles advogados que eu acredito que defendia o Hitler, se fosse preciso, e ainda insultava os judeus por se atreverem a fazerem-se vítimas.
Se a sociedade fosse justa estes tipos seriam, não recompensados, mas castigados pelo seu intento de corromper aquilo que temos de mais sagrado que são as nossas crianças.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

O meu cão é um preguiçoso!



O meu cão cada vez está mais parecido comigo: preguiçoso como o caraças!
Agora, de manhã, já não ladra se alguém bate à porta, nem sequer sai de debaixo da manta. Quando eu saio para o trabalho, o gajo tem a lata de não me vir dizer adeus. Eu chamo-o, e digo - Então Kiko? Não te despedes do dono? - a única coisa que eu vejo é a manta a mexer-se quando o gajo abana a cauda. Levantar-se e vir ter comigo? Está quieto!

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Marcola, um Anjo caído?

Recebi hoje no e-mail uma entrevista feita ao Marcola, líder do PCC (Primeiro Comando da Capital), que anda a circular por aí como se se tratasse de uma peça verdadeira.
Esta entrevista ficcional, criada por Arnaldo Jabor para o Segundo Caderno do Globo, é, na minha opinião, brilhante e quase poética.
Arnaldo Jabor, no início da entrevista, dá a Marcola alguns dos traços psicológicos de Satã da Divina Comédia de Dante. Mais para o fim da entrevista, joga com a ambiguidade do eterno executor que foi um dia um anjo e que nunca perdeu a esperança de voltar. Este último, um Satã mais próximo de Paraíso Perdido de John Milton.
O que se depreende do objectivo desta entrevista, colocando de lado as imagens poéticas e referências divinas, é uma vontade de levar o leitor brasileiro a acreditar que a única solução - se é que existe uma - para a decadência do seu país é uma "tirania esclarecida". Não uma "ditadura militar", que é (era) pouca esclarecida; mas uma com um outro Getúlio Vargas ainda "inocente", acabado de cair, mas esclarecido.

- "Você é do PCC?"

- Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível... vocês nunca me olharam durante décadas... E antigamente era mole resolver o problema da miséria... O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias. A solução que nunca vinha... Que fizeram ? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a "beleza dos morros ao amanhecer", essas coisas... Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo... Nós somos o início tardio de vossa consciência social... Viu? Sou culto... Leio Dante na prisão...

- Mas... A solução seria...

- Solução? Não há mais solução, cara... A própria ideia de "solução" já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento económico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma "tirania esclarecida", que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC...) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até Conference Calls entre presídios...) E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.

- Você não têm medo de morrer?

- Você é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar... Mas eu posso mandar matar vocês lá fora... Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba... Estamos no centro do Insolúvel, mesmo... Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração... A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala... Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em "seja marginal, seja herói"? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha... Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante... Mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feitas "com autorização da Justiça"? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, Internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.

- O que mudou nas periferias?

- Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$40 milhões como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório... Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no "microondas"... Ha, ha... Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.

- Mas o que devemos fazer?

- Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas... O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, "Sobre
a guerra". Não há perspectiva de êxito... Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas... A gente já tem até foguete antitanques... Se bobear, vão rolar uns Stingers aí... Pra acabar com a gente, só jogando bomba atómica nas favelas... Aliás, a gente acaba arranjando também "umazinha", daquelas bombas sujas mesmo... Já pensou? Ipanema radioativa?

- Mas... não haveria solução?

- Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a "normalidade". Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco... na boa... na moral... Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês... não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: "Lasciate ogni speranza voi che entrate!" - Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno."

terça-feira, janeiro 09, 2007

O melga

Desde que conheci um determinado sujeito, nunca mais me consegui livrar dele. O pior é que este sujeito é como o Melga do filme (The Cable Guy).
Eu já lhe dei a entender que não queria ser mais amigo dele incontáveis vezes; eu já lhe disse directamente que Não queria continuar esta relação.
Finalmente cheguei à conclusão que forçar o desfecho é pior. E é pior porque este melga torna-se vingativo e persegue-me; e as acções que comete são covardes e com o propósito de me humilhar.
Então resolvi, de há uns tempos para cá, tomar outra posição. Uma posição de desprezo, de desconhecimento da sua existência, de ignorância da sua identidade. Teve alguma eficácia, mas esta é limitada pelo tempo. Ou seja, passado algum tempo este sujeito aborrece-se e volta a atacar. Claro que os seus ataques são sempre pautados pela covardia, mas contra isso nada posso fazer.
Para conhecerem melhor este sujeito de quem estou a falar, vou fazer uma breve descrição do seu carácter:
Este é um tipo com a maturidade de uma criança de 15 anos, que no entanto tem acessos de adulto; Para além dos amigos de infância - que fogem dele - é-lhe difícil fazer novos amigos; Todas as suas relações são de conveniência, TODAS!; Porque tem uma fraca auto-estima, todas as características exteriores a si (que não lhe pertencem) e que ele subconscientemente considera superiores, são atacadas e lançadas por ele numa competição para provar que ele é de facto o melhor; Para este sujeito a ideia de uma competição não passa apenas por ganhar o primeiro lugar, mas também de arrastar a reputação do competidor pela lama e (tentar) humilhá-lo publicamente pelo descaramento de levar a competição até ao fim; Tem a triste noção que tem um nome e reputações grandiosos, quando é apenas um tipo medíocre. Este bizarro conceito que tem de si próprio, leva-o a esconder os seus actos mais vis sob pseudónimos e o pesado cobertor do anonimato; É um mentiroso oportunista e patológico; É um obcecado perseguidor; É um impostor; É um vilipendiador.
Claro que não seria imparcial se não enunciasse as suas características positivas, e isto será muito rápido:
No fundo é um bom tipo com bom coração. Não fossem os seus problemas mentais e era um gajo 100% porreiro; Não é egoísta; Materialmente, não diz que não a um amigo; É voluntarioso no aconselhamento e ajudas intelectuais; É tipo para entrar em quase qualquer aventura; É bom conversador; É inteligente e perspicaz; Tem bom humor.
Toda a população humana tem qualidades e defeitos. As amizades crescem e morrem neste caldo, nesta mistura. Às vezes basta uma qualidade ou um defeito para acabar uma amizade. E é o que se passa aqui. São defeitos que não suporto, apesar das suas qualidades. Não suporto nem sou obrigado a suportar mais.
Eu gostaria de dar por terminada esta amizade, mas a outra parte insiste, por malvadez, em retomá-la, e retomá-la, e retomá-la. É quase infernal.
Muitas vezes sinto-me tentado a vingar-me da pior forma possível. Na verdade, elaboro mentalmente planos de vingança e meço as consequências. Já estive muitas vezes à beira de pôr em prática um destes planos maquiavélicos, mas depois dou um tempo e a minha raiva passa, e esqueço-me...
Era bom que este melga se esquecesse que eu existo, que eu pela minha parte, e muito facilmente, me esqueço que ele existe também.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Fascistas anti-fascistas

Esta iniciativa alemã de querer proibir as actividades e símbolos neo-nazis na Europa, preocupa-me.
Não tenho nenhuma preferência pelos nazis, bem pelo contrário. Mas no que toca à liberdade de expressão, sou um feroz defensor. E a liberdade de expressão diz que devemos ser tolerantes até com as ideias intolerantes.
Esta é claramente uma medida fascista, mesmo que seja anti-fascista na pele.
O que é que se vai proibir a seguir? Deixa-me cá pensar um pouco...
Ah! E porque não a Igreja Católica? Estes gajos também mataram muita gente; E já agora, porque não restringir a liberdade aos próprios alemães? Nunca confiei muito neste gajos. Costumam ter ideias totalitaristas, fascistas e xenófobas. Acho que era de limitar a liberdade de expressão destes gajos; Os muçulmanos também têm umas ideias esquisitas, o melhor é acabar de vez com todos os meios de comunicação dos gajos - assim como os americanos estão a fazer ao proibir o canal Al-Jazhira nos U.S.A.; Por falar em americanos, não foram estes que mataram milhares de pessoas com bombas atómicas?; E os turcos? E os Ingleses? E nós? E eu? E tu?
Como os revolucionários brasileiros diziam no tempo da ditadura: É proibido proibir!

A Wikipedia Lusófona é uma merda!

Estou muito desiludido com a Wikipédia Lusófona.
Grande parte desta encontra-se redigida em português do Brasil, e se na Wikipédia Inglesa as diferenças idiomáticas (Inglaterra e U.S.A.) não são tão evidentes, o mesmo não se passa com a nossa (rica, é certo) língua.
Qualquer iniciativa que um utilizador português tenha, seja de acrescentar ou actualizar a Wikipédia Lusófona, é imediatamente cortada pela raíz por vários factores: a inacreditável quantidade de erros (gramaticais e ortográficos) que esta possui; a disparidade entre o português de cada país, nomeadamente Portugal e Brasil; a grande quantidade (mais de 90%) de conteúdos na língua portuguesa do Brasil; a qualidade medíocre dos artigos escritos em português do Brasil; a diferença lexical.
No que toca a construir uma enciclopédia, mesmo com a natureza da Wikipédia, é necessário rigor e uniformidade. Coisa que esta não tem em absoluto.
Em 3 de Julho do ano passado (2006) foi feita uma votação para se decidir uma divisão na Wikipedia Lusófona entre, pelo menos, Portugal e Brasil. O resultado, por falta de votantes portugueses, foi a não separação desta: lêr aqui.
Mas como é que surgiu a minha desilusão em relação à Wikipédia Lusófona?
Começou tudo porque hoje resolvi fazer o registo na Wikipédia. Obviamente tive que ler uma série de artigos para aprender a linguagem de tags da Wikipédia, a netiquete, e outras coisas mais. Mas, a meio da minha aprendizagem, comecei a perceber que esta Wikipédia realmente não vale nada - não tinha ideia, porque consulto sempre a Wikipédia inglesa.
Comecei a perceber que eu não tinha nada que estar ali; esta Wikipédia não me pertencia. Ela já tem dono, e o dono fala brasileiro, não é muito inteligente e escreve muito mal.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

alfas, cretinos e bons rapazes

Uma boa parte da minha vida como macho tem sido confusa. Não no que toca à sexualidade, mas na escolha do tipo de macho que eu quero ser.
Essencialmente sou um bom rapaz. Mas sei que se quiser saltar para as cuecas de uma gaja tenho que ser agressivo e assertivo - um macho alfa.
Por vezes também sei ser (sou) um cretino.
Bom rapaz, macho alfa ou cretino? Aqui reside a minha dúvida existencial.
Qualquer homem consegue, com algum sucesso, emular as características de um destes machos, mas mantê-las é outra história. Então porquê a necessidade de fingir ser o que não sou - evidentemente para ter sexo! Sexualmente, os machos alfa e os cretinos safam-se melhor que os bons rapazes.
Mas voltando ao que eu sou: digamos que a maior parte do dia sou um bom rapaz, e depois, consoante a companhia e o ambiente, consigo transformar-me (durante cerca de duas horas no máximo) num alfa ou num cretino. Isto já me tem sido útil para encontros sexuais ocasionais, mas nunca com a mesma parceira. Isto explica-se porque não consigo manter a fachada durante muito tempo.
E se como (falso) alfa posso conseguir, potencialmente, qualquer tipo de mulher; já como cretino só consigo mulheres de cabeça oca - dado que são estas as únicas que se sentem atraídas por um.
Como bom rapaz, que sou, estou fadado a ser material de casamento e parentalidade - embora ande fugido dessa circunstância. - E destinado a ter que arranjar grandes estratagemas para levá-las para a cama.
Se eu pudesse escolher seria um macho alfa, mas infelizmente calhou-me ser um bom rapaz. Que cretino que eu sou!

Bibliografia:
How To Become An Alpha Male,
John Alexander

terça-feira, janeiro 02, 2007

geeks, nerds e dorks

Eu nunca percebi bem se seria considerado um geek ou um nerd caso vivesse nos U.S.A. Ainda existe uma terceira categoria - dork -, mas com esta nunca senti ligação.
Felizmente foi publicada uma tabela com as diferenças neste site.


GEEK NERD DORK
Chief Cell-Phone Concern Does it have BlueTooth? Does it play games? Who would I call?
Mantra Can we fix it? Yes we can! The meek shall inherit the earth Where’s the remote?
Dream Job(s) Nasa/ILM/Google Wizards of the Coast/Marvel Comics ‘American Idol’ Archivist
Uniform Jeans and Ironic T Penny loafers and Acne Whatever Mom wants
Starter Apartment Furniture Computer Desk Kitchen Table for D&D Starter Apartment?
Favorite Sport Robot Wars Captain Kirk Drinking Game Handheld video poker
Playlists Knight Rider/A-Team Mashups Lord of the Rings/Star Wars Soundtracks 139.5 ‘Best Hits of Today, Tomorrow, and Beyond!!!’
Favorite Childhood Toy Legos Superhero doll action-figure Own snot
Boner Worthy API Documentation Babylon 5 Marathon Bra section in the JCPenny Catalogue

Agora sei que sou um híbrido de geek com nerd e nada de dork.
Agora sei também que muitos dos chatos que me apoquentam são dorks.