segunda-feira, setembro 29, 2008

Gabriela eu...

Saiu-me na rifa uma mulher que gosta de futebol e de caracóis. Não consigo evitar sentir, ocasionalmente, uma crescente feminilidade em mim. Quando dá o Benfica e estou a lavar a louça, se a mulher berra com o árbitro ou manda o Nuno Gomes correr, eu encolho-me, na cozinha, trémulo.
Não detesto futebol, só não gosto muito; já os caracóis, desprezo-os!
Quando almoçamos na casa dos meus sogros, quase todos bebem vinho. Eu fico-me sempre pela minha bebida favorita: água.
Entre a conversa de futebol e um copo de tintol, pai e filha desentendem-se alegremente. Quanto a mim, vou ouvindo atentamente as recomendações domésticas da minha sogra bem como a descrição detalhada da receita da refeição que devoro sem muita vontade - sempre comi pouco para grande desconfiança de quem come muito; dizem-me que "quem não é para comer, não é para trabalhar", coisa que nunca percebi pois independentemente da "tonelagem" de trabalho sempre comi pouco, a única coisa que me abre o apetite é a maresia.
Enquanto a minha sogra me "educa" nas artes domésticas eu vou-me lembrando que tenho de cortar as unhas e hidratar a pele...
Suspiro muitas vezes quando lavo ou aspiro o chão; dou por mim a emocionar-me com cãezinhos e anúncios ternurentos; You've got mailSleepless in Seattle sobem todos os dias na minha consideração, e When Harry met Sally parece-me cada vez mais misógino (engraçado, nunca tinha utilizado esta palavra, e tenho a impressão que nem sequer sabia da sua existência...); ainda renuncio ao Sexo e a Cidade, mas penso que não por muito tempo; os meus pensamentos, outrora pragmáticos e pornográficos, agora estão impregnados de listas de compras de supermercado, datas comemorativas e contos de fadas.
A transformação é iminente: ou estou a tornar-me numa mulher doméstica, ou num homem domesticado.