quinta-feira, novembro 23, 2006

Os comedores de ideias

Se há coisa que eu gosto é de ter ideias e de desenvolvê-las.
Se há coisa que detesto, são as pessoas que esperam pelas ideias (são sempre as mesmas) para tentar deitá-las abaixo.
Claro que uma boa discussão acerca da "ideia" é sempre positivo, desde que daí saia uma melhor ideia. Infelizmente as discussões com quem gosta de massacrar ideias são normalmente frustrantes.
Enquanto eu tento explicar a potencial complexidade da minha ideia, o meu antagonista tenta simplificá-la até esta se tornar apenas uma lâmpada fundida.
Eu não me dou por vencido, e as minha ideias, estrambólicas ou não, nunca me saiem da cabeça. Volto sempre a tentar implementá-las mais tarde, isto até ter sucesso.
Já o trabalho para pôr a ideia em prática não me agrada tanto.

Não! Trabalho não! Trabalho não! A minha especialidade são as ideias.
(Citação traduzida e livremente adaptada de Oskar Schindler, de Schindler's List)

segunda-feira, novembro 20, 2006

É p'ro menino e p'ra menina!

Correndo o risco de ser rotulado, venho, mais uma vez, defender os homossexuais e as suas reinvindicações.
Não vou começar a minha argumentação com a defesa preliminar da minha sexualidade alegando o que sou ou o que não sou - só me importa o pensamento daqueles de quem gosto e de quem sou próximo.
Começo por dizer que sou completamente a favor, tanto do casamento como da adopção, por parte dos homossexuais.
Por outro lado, também concordo com o Anarquista Duval quando se queixa dos paneleiros das casas-de-banho públicas. A realidade é que a maior parte destes são predadores, animais e completamente broncos, à semelhança da maior parte da população nacional.
Por tanto, quem eu vou tentar defender são pessoas bem-formadas, ou melhor, formadas.
Começo pelo casamento: Apesar de achar que têm todo o direito a se unirem numa instituição, com todas as regalias que o casamento católico tem, não entendo muito bem a necessidade da união religiosa. Religião que sempre os marginalizou. Mas, liberdade acima de tudo. Se querem acreditar num Deus que rejeita a monoparentalidade, por mim tudo bem.
Quanto à adopção, está mais que provado (na prática e na teoria) que esta não prejudica as pequenas criaturas chamadas crianças. Isto porque esta prática já é legal em alguns países há vários anos. E dessa experiência já se tiraram as devidas ilacções.
É curioso, mas já foram feitos estudos acerca desta prática por disciplinas tão diversas como a economia e, claro, a sociologia.
O estudo que me chamou mais a atenção até agora veio resumido no livro "Freakonomics" de Steven Levitt (um economista muito conceituado). Aqui ele aborda resumidamente um estudo feito a uma população, durante décadas, para saber da relevância de determinados factores na educação das crianças. Deste estudo inferiram que não tem grande importância aquilo que as crianças fazem e que se diz que é mau (muitas horas de TV, etc), assim como a estrutura da parentalidade (mãe-pai, mãe-mãe ou pai-pai) também é absolutamente irrelevante para a criança. No final e em conclusão, o que tem importância é o que os pais são na sua essência. Se são bons, inteligentes, sensatos, etc., ou não.
Agora podem haver aqueles que argumentam que uma criança no seio de uma família destas corre um risco mais acentuado de se tornar, ela também, em outro homossexual. A estes posso contra-argumentar com dois conceitos: primeiro, a maior parte dos adultos homossexuais vêm de estruturas familiares clássicas (mãe-pai); segundo, mesmo que o argumento fosse válido não teria qualquer importância para mim porque não considero a homossexualidade uma doença.
Comecei este texto a dizer que não ia esclarecer quem o lesse da minha sexualidade por uma razão muito simples: se sou, seria parcial; se não sou, cairia no erro da justificação prévia da minha sexualidade, o que denotaria receio da minha parte de qualquer espécie de ligação com a homossexualidade. Este receio seria uma grave falha na minha argumentação, porque a este estaria associado uma fobia a esta condição, uma pré-marginalização.
Vá, agora já me podem chamar nomes.
Depois de vomitarem as alarvidades que quiserem, aproveitem para reflectir um pouco sobre o que a sociedade vos impinge. Se colocassem em dúvida tudo o que vos transmitem, não seriam tão básicos.

segunda-feira, novembro 13, 2006

A fisiologia da vergonha no português

Para enumerar as reacções de um corpúsculo português à vergonha, tenho primeiro que colocá-lo num habitat. Digamos...talvez no concerto do Fish deste Sábado na Aula Magna.
O português sempre tentou ser um tipo cool, isto significa que tentamos ser tão descontraídos como os camones, embora sem sucesso.
Primeiro, aparentemente relaxado, começa a "abanar o capacete" e a cantar. Infelizmente este relaxamento só dura no máximo um minuto, até que o português tome consciência do que o que está a fazer vai contra toda a sua natureza pacata. Estes períodos de "despertar" podem acontecer durante todo o evento, a não ser que o português tome medidas de defesa, ou seja, que se encharque de álcool antes do acontecimento.
Vamos esquecer o alcoolizado e continuar com o menino, perdão, com o sóbrio.
Depois do "despertar" o que acontece são rápidos e sucessivos espasmos nos olhos. O que podemos chamar de olhar sorrateira e rapidamente a periferia para ver se ninguém está a observar a sua (pensa ele) figura rídicula.
Se ninguém o viu continua, mas sempre desconfiado com aqueles que ele não consegue topar. Se alguém está a olhar para ele, são imediatamente desencadeados outros processos fisiológicos.
Depois de um Bolas!, segue-se o já conhecido apertar das nádegas, o rubor das faces e o baixar de cabeça. Pensa um momento na idiotice que é a vergonha e retoma o comportamento inicial: "abanar o capacete" e (tentar) cantar a música, seguido de um "Que s'a foda!".
Uma vez e outra e outra...
Existem outros comportamentos de vergonha, mas estes não são registados neste tipo de habitats.
Vamos mudar o cenário para, por exemplo, uma conversa de exploração em que dois, ou mais, participantes não se conhecem. Ajuda se forem do sexo oposto.
Geralmente os envergonhados são do sexo masculino. Porque ao contrário das libertinas das mulheres, os homens são mais inseguros.
Então o comportamento do homem começa por fortes aspirações do ar circundante com a boca, ruidosamente, olhar fixo num horizonte imaginário, não vão os olhos cairem para as mamas da participante (obviamente) feminina; as perguntas deste são tudo menos subtis: chama-se a isto exploração introdutória; é possível que faça vários disparates à mesa; o rubor e o apertar de nádegas também podem acontecer neste ambiente; e, claro, o olhar rápido à área circundante para verificar que não existem outros machos a observarem, jocosamente, o seu comportamento.
A vida do português é difícil e não se recomenda a cardíacos.

terça-feira, novembro 07, 2006

Quem sou eu?

Quase ninguém me compreende.
Chamam-me difícil, problemático, estranho...
Alguém muito próximo de mim diz que sou complicado como os velhos; as minhas colegas dizem que faço um cavalo de batalha de todas as questões; a maior parte das pessoas com quem me dou acha que sou estranho e de feitio complicado.
E o que é que eu sou? Terão razão estas pessoas?
A verdade é que concordo com todas estas opiniões, só não concordo é com a carga negativa que acompanha estas qualificações.
Sempre fui difícil, problemático e estranho.
Os velhos são mal vistos pela sociedade ocidental, mas eu, apesar das minhas piadas geriátricas, sempre tive muita consideração e "respeito" pela terceira idade. Não toda, apenas os poucos que realmente aprenderam com o passar dos anos. Por isso não costumo tomar como insulto quando me dizem que sou complicado como um velho.
Também é verdade que faço um cavalo de batalha de praticamente todas as questões, gosto de ser metódico e de fazer o trabalho o melhor possível. Sou de facto estranho segundo os padrões de normalidade. E há dias que só peço que não se aproximem de mim, são dias maus, são dias em que quase rosno e tenho um olhar feroz - pelo menos é o que me têem dito.
Mas sou assim tão mau? Serão estas qualidades negativas?
Permitam-me que me defenda.
Sou complicado porque não gosto de ser simples e não acredito em coisas simples; sou problemático, é verdade, e talvez isso seja consequência da primeira; sou estranho porque não faço por agradar, nem procuro soluções fáceis; o meu feitio complicado talvez seja a única qualidade que de facto é negativa, mas acho que nunca tomarei químicos para equilibrar o humor.
Muito poucos me compreendem, mas são os poucos que contam.


Este texto é dedicado à bazaroca da minha irmã.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Gajas boas e muito dinheiro

Eu sei, assim como muita boa gente sensata sabe, que provavelmente nunca serei rico ou concretizarei todos os meus sonhos. Felizmente, a minha paz de espírito e média de felicidade não sofrem com essa expectativa frustrada. Tanto é assim que não jogo, excepto quando alguém me pede para integrar uma equipa - raro!
Claro que gostava de ser rico e etecetera e tal, mas à semelhança da existência de Deus, são ideias com as quais não perco o meu tempo. São as duas extremamente improváveis.
Outra coisa que também gostava, era de ter as mulheres boas que quisesse e em quantidades industriais. Infelizmente, para se ter acesso a mulheres boas é necessário uma de duas coisas: muito dinheiro (quanto mais boas, mais caras) ou muito bom aspecto. Mais uma vez, infelizmente, não possuo nem uma nem outra característica. Apesar de que a segunda cada vez é menos importante pela sua inocuidade.
Já agora, convém sublinhar a minha opinião de que as mulheres quanto mais bonitas mais caras se vendem. Ou seja, os atributos físicos femininos são, numa grande maioria trocados por bens e serviços. Raro será, ver uma mulher bonita com um homem pobre. A não ser que esta não seja muito inteligente. Mesmo assim não são de descartar.
Mas a tendência para as injustiças é estas serem lentamente equalizadas.
Recordo que há aqui uns tempos atrás escrevi sobre os livros electrónicos e o fim do elitismo intelectual graças ao desenvolvimento tecnológico. Quando digo elitismo, refiro-me aquele que existe por causa dos privilégios das classes sociais mais "abonadas". Claro que o elitismo ideológico e intelectual (independente e original) existirá ainda por muito tempo.
Paralelamente à indústria do e-book, existe uma outra que investiga a realidade virtual, e devo dizer que de dia para dia esta torna-se cada vez mais real e próxima.
A realidade virtual será o equalizador dos equalizadores. Com esta, toda a gente terá acesso ao que quiser. O pobre e o rico serão apenas homens; o paralítico poderá andar; o surdo poderá ouvir; o cego poderá ver; e, o mais importante, eu poderei ter as gajas boas que quiser em doses orgíacas.
Quais as consequências? Os filmes pornográficos acabam de um dia para o outro; as relações casuais conhecem um fim abrupto - a partir daí, os humanos só se interessam pelo amor, já que o sexo têem-no quando querem e com querem; os católicos tentam impedir este movimento sexo-virtual com o argumento de que a libertinagem, mesmo virtual, é pecado, e o desperdício de esperma (que também é vida) é um crime; quanto aos muçulmanos, finalmente encontram as suas sete (ou quarenta?) virgens sem precisarem de explodir nada; depois, juntamente com a IURD, os Protestantes, as Testemunhas, os Manás e a Opus Dei, cessam de existir como organizações para se dedicarem individualmente à pedofilia e violações virtuais; as viagens físicas, e por isso as linhas aéreas, férreas e frotas marítimas conhecem uma nova palavra: Falência!; as gajas boas sentem-se confusas por já não serem endeusadas e aderem também à moda virtual, e surpresa das surpresas, elas preferem os gajos feios, brutos e a cheirar a cavalo.
Eu nunca serei rico ou concretizarei todos os sonhos que tenho, mas espero viver o suficiente para ser rico e concretizar todos os sonhos que tenho numa outra realidade.