quinta-feira, julho 26, 2007

As lãs da minha memória

Cheguei a um nível completamente novo de esquecimento.
Quando vinha do almoço para o trabalho, dei de cara com uma miúda muito gira cuja cara me parecia muito familiar, o que veio a provar-se um instinto correcto porque ela me cumprimentou efusivamente com um "Andrée!!!"; Olhei para ela com um sorriso e retribui-lhe a satisfação "Oláa!!!". Mas quem era ela? De onde é que eu a conhecia? Aquela cara gira e as ancas férteis estavam-me a bloquear completamente a concentração.
Quando eu julguei que íamos falar dos velhos tempos, ela apresenta-me a mãe e pergunta-me se eu não conhecia nenhuma casa de Lãs naquela rua. Claro que eu soube responder-lhe! Sim, porque uma casa de Lãs já é uma coisa que o meu cérebro considera de importância vital para armazenamento. Estúpido!
Como a casa já tinha fechado eu indiquei-lhe outro sítio que ela podia ir, os Armazéns do Minho. E mais uma vez insultei-me em silêncio por guardar este tipo de informações e não o nome e outras referências desta beldade.
Abraçou-me, beijou-me, disse-me adeus, retomei o caminho, e passado cinco minutos lembrei-me: "Dulce!!!"
Mas esta miúda era uma maluca e agora está à procura de Lãs? - Grande Dulce! - Lembrei-me eu com nostalgia.

Nota final: Para quem leu as histórias da Andreia (Quando o amor acaba (...) e Ontem morri!), a Dulce foi a minha inspiração.

quarta-feira, julho 25, 2007

Troco mãe

Sempre que alguém vai pedir dinheiro ou divulgar informação necessária - vida depois da morte e afins - a casa da minha mãe, ela, do alto da sua generosidade e boa graça, ou diz que não tem dinheiro e para tentarem no andar de baixo, na casa do filho, ou diz que não tem tempo mas que o filho é muito atencioso e compreensivo e que irá concerteza ter tempo para receber as linhas orientadoras de qualquer Deus.
Não é preciso dizer que sempre que abro a porta e um desconhecido me pergunta "É o filho?" sei sempre o que me espera.
Ontem tive direito a mais um episódio desta interminável telenovela: Abri a porta; a senhora mandou um berro com o kiko que sai sempre inofensivamente disparado; eu olhei para ela com olhos de carneiro mal morto porque já desconfiava o que ia sair dali; ela explicou-me de onde vinha e o que queria, não sem antes perguntar se eu era o filho, claro!; eu disse-lhe que não tinha nada para lhe dar mas que a porteira tem sempre qualquer coisita (cada um goza com quem pode); ela despediu-se com um olhar de desprezo; eu esquecia-a em cinco minutos.
Mais tarde fui a casa da minha mãe para tentar perceber o que é que ela tem contra mim e para lhe perguntar quando é que me devo mudar para outro prédio. Mal cheguei a casa dela comecei a ouvir uma gargalhada abafada...
Já não chega viver num prédio hostil onde a porteira espalha o boato que eu sou homossexual e que alguém se diverte a pôr sal debaixo do meu tapete, também tenho que viver um andar abaixo de uma mãe sádica.

segunda-feira, julho 23, 2007

Perdido outra vez!


Foi um caminho difícil até chegar ao jantar de bloggers no Sábado.
Como fui a pé, resolvi ir com uma hora e um quarto de antecedência, o que me daria, pensava eu, tempo suficiente para encontrar o restaurante.
Antes mesmo de entrar no Metro fui abordado por duas coreanas que me queriam - não acaba aqui... - fazer umas perguntas. Só permiti isto porque as duas eram giras e eu ainda tinha muito tempo; não liguei ao facto de estarem com uma bíblia na mão e preparei-me para as perguntas da chacha.
Depressa cheguei à conclusão que tinha cometido um erro: não só elas falavam penosamente o português, como também já me tinham lido umas dez passagens da Bíblia em que dava a entender que havia afinal dois Deuses e um deles seria uma Deusa - Um casal, portanto!
Liguei o turbo dos ateus e fugi dali p'ra fora - Nenhuma gaja é gira o suficiente para me obrigar a ouvir disparates.
Metro, finalmente...
Cheguei calmamente ao Parque das Nações, olhei para o relógio e comecei a andar lentamente - Ainda faltava uma hora e eu não ia ser o primeiro a chegar. Não, não!
Foi só depois da décima quinta pessoa (polícias e seguranças incluídos) a quem eu perguntei se conhecia tal restaurante que comecei a ficar ansioso. Faltavam quinze minutos para a hora marcada do jantar e eu ainda não fazia ideia onde era. Acho que meia hora depois, quando estava prestes a desistir, é que me lembrei que tinha no bolso o número do telemóvel da minha querida amiga Avelã. Entrei no Centro Comercial Vasco da Gama e telefonei-lhe.
Eu não gosto de andar com telemóvel mas já estava arrependido por não o ter trazido.
Depois de umas breves orientações que me deixaram na mesma porque não fazia a mínima ideia para onde era o Norte, fui em direcção à bússola mais próxima: Um Táxi!
Ao fim de mais quinze minutos de um lado para o outro, comecei a pensar que aquilo era uma grande partida de alguém que me queria fazer sofrer: Nem o taxista encontrava o raio do restaurante! Finalmente um raio de luz. Lá estava ele. Afinal já tínhamos passado por lá umas três vezes. Acho que tanto na minha mente como na do taxista íamos à espera de encontrar um restaurante com esplanada e música à semelhança de todos os outros da zona; no entanto este não só era bastante sóbrio como tinha qualquer coisa de camaleónico.
A minha primeira preocupação quando entrei foi se ia ser o último a acabar de comer porque todos já teriam comido - traumas da primária -, felizmente ainda estavam nas entradas.
A partir daqui já não há muito mais para contar que não passe os limites do pessoal, mas correu tudo bem, toda a gente foi muito simpática, com especial relevo para a Florença, o João e a Avelã, e foi uma noite muito agradável.

sexta-feira, julho 20, 2007

Potter e a irritabilidade das mulheres

Ontem fui ver o Harry Potter com a minha sobrinha, a minha irmã e o Pedro.
Tirei duas conclusões: o filme é giro e as mulheres têm um fraco poder de concentração aliada a uma irritabilidade latente e inata.
Atrás de nós sentaram-se uns putos que, aparentemente, não se calaram durante todo o filme. Digo aparentemente porque nem eu nem o Pedro nos apercebemos disso, tal era a nossa concentração no filme; já a Maria e a Patrícia passaram o filme a vocalizar chius e a olharem para trás com as sobrancelhas sobreerguidas.
Podem-me dizer que os homens geralmente não se fazem notar em meios públicos com acessos de irritabilidade, o que é verdade, mas não minto quando afirmo que mal me incomodaram as vozes traseiras dado o meu fascínio pelo desenrolar do filme.
Ainda me passou pela cabeça fazer um feitiço para calar os putos e as mulheres, mas esqueci-me de levar a varinha.

terça-feira, julho 17, 2007

Estação Liberdade: O começo.

Bem vindo à Estação Liberdade!
Com um novo aumento do IRS ou do IVA (ou de ambos) num futuro próximo para colmatar as faltas da Segurança Social, este Governo prepara-se para acabar de vez com toda a classe média - exterminá-la!
Tenho algumas medidas, também para o futuro próximo, para combater este Regime Capitalista:
A primeira é o ataque à fantochada da Democracia representativa escolhendo não votar;
A segunda, e esta é só para aqueles que acham que o ordenado assim que entra na conta sai de imediato na totalidade, é não abrir, pura e simplesmente, contas. Pagar tudo em dinheiro vivo.
A terceira é consequência da segunda. Não aderir ás linhas de crédito, empréstimos, cartões de crédito e de débito.
A quarta é aumentar o consumo da pirataria.
A quinta é a criação de movimentos de cidadãos que permitam uma mudança de paradigma da Democracia representativa para uma participativa e consensual.
A seu tempo outras medidas serão divulgadas, por agora é tudo...
Obrigado pela sua participação leitor. Esteve a ler a Estação Liberdade.

segunda-feira, julho 16, 2007

Quando uma ideia morre...

Parece que há por aí uma grande confusão com o conceito de liberdade de expressão.
Dizer aquilo que se pensa com liberdade não significa que não hajam consequências ou vozes discordantes. Aliás, arrisco afirmar que quem sente a liberdade de se exprimir como quer mas nega-se a discutir as suas próprias ideias e enfurece-se com os contraditórios, não passa de uma pessoa ignorante e limitada que mais depressa tomará os caminhos do fundamentalismo do que abraçará a sua própria hipocrisia.
A liberdade de expressão não acaba com a primeira ideia exprimida em liberdade, pelo contrário, a ideia, uma vez iniciada a sua jornada, nunca parará de se transmutar; por conseguinte, a ideia viverá para sempre. Uma ideia que pare e se torne indiscutível, deixará de existir para dar lugar a um dogma.
O surgimento dos dogmas erradicam a liberdade de expressão e são terreno fértil para todos os fundamentalismos. E é no simples término da viagem de uma ideia que nascem todas as sociedades intolerantes.
Não espero sinceramente que os terroristas das ideias rebentem com os seus dogmas, a minha única esperança é aumentar o número de radicais livres para que possamos em conjunto oxidar as células infectadas por este vírus.

quinta-feira, julho 12, 2007

O rapaz que queria ser Rei

Era uma vez um rapaz que queria ser Rei de Portugal.
Ele tinha todas as características necessárias que um Rei deve ter: burro, pouco articulado e mal educado.
O rapaz tinha um irmão que, à boa maneira monárquica, foi escolhido para seu braço direito. O irmão deste rapaz wanna be King, já havia participado num reality show para se tornar mais famoso e mais idiota - e resultara!
O rapaz que queria ser Rei resolveu começar por invadir Lisboa. Mas por falta de articulação e inteligência, este rapaz começava a desconfiar que nem um soldado conseguiria engajar no seu sonho.
Ao perceber que os contos de fadas já tinham acabado mudou a estratégia de invasão para uma de indignação.
Quando todos os cavaleiros do Reino se juntaram na Távola Redonda para se lançarem num combate de retórica sem tréguas, este rapaz percebeu que nem o cavaleiro do Big Brother conseguia derrotar. O rapaz saiu humilhado deste encontro mas a ideia de indignação não lhe saía da cabeça.
Desesperadamente, no dia seguinte, o rapaz levou consigo uma palete de rolos de papel higiénico para entregar no Palácio de Lisboa que, dizia-se, não possuía moedas suficientes para os comprar. Foi obrigado a deixar os rolos no passadiço real porque nenhum popular resolveu aceitar a oferenda.
O rapaz, que um dia foi conhecido como bon vivant - uma espécie de playboy local, que em vez de carros e miúdas giras prefere fado e touradas - continua indignado e de vez em quando aparece na televisão a mandar postas de pescada.

quarta-feira, julho 11, 2007

O Diário de A(na)lfabeta

Serão a maior parte das brasileiras que viajam para este país prostitutas?
A autora deste texto (Brasileiras) diz que segundo os seus profundos estudos (ela leu as secções de anúncios de vários jornais) conseguiu extrapolar e inferir a incrível conclusão que grande parte das brasileiras que imigra para este país, vem com o objectivo de se tornar puta - este estudo só é apontado nos comentários que fez aqui.
Claro que um estudo aprofundado como este não teria qualquer significado se não fosse acompanhado de um esplendoroso julgamento moral. A indignação que esta senhora demonstra ao criticar severamente as brasileiras que só cá vêm para este tipo de trabalho é digna de honras dos mais variados mosteiros da idade média baixa.
Eu gostava de acrescentar que também fiz alguns estudos utilizando as mesmas fontes e cheguei ás seguintes conclusões: a grande maioria dos africanos vem para este país para se tornar discípulo do Prof. Karamba; e grande parte dos casais portugueses anda a dedicar-se ao Swing.
Eu pergunto, caso esta senhora esteja certa e caso não houvesse brasileiras para ocupar tão nobre lugar, quem iria desempenhar essas funções? Quem iria dançar no colo dos homens de família aos fins-de-semana? Quem iria desenrascar aqueles gajos mesmo feios que não conseguem levar nenhuma para a cama? E os velhotes que não são ricos? Como é que eles faziam?
O que esta senhora quer é o que aquelas provincianas (já não sei de onde) há uns tempos atrás conseguiram fazer: expulsar algumas pobres coitadas que trabalhavam no alterne. Fizeram-no por medo de perderem os maridos. Eles, coitadinhos, demonstraram uma total compreensão e mantiveram-se "rijos e erectos" ao lado das suas pobres esposas.
Achei imensa piada a esta passagem do seu texto "eu não sou racista embora certos comportamentos são típicos de algumas raças"; e também esta última afirmação é deliciosa "estas gajas só estão no nosso País para isto? Fogo são todas umas va..., porra!!!!!!!!!". Todo o texto é de uma preciosidade rara, digno de ser publicado num qualquer jornal da extrema direita.
Devo dizer que há uns tempos atrás estive mesmo para catalogar este blog como blogs da caca seca, não o fiz porque já tinha falado com a moça pelo MSN e não quis faltar-lhe ao respeito, mas agora, depois disto tudo, é para lá que vai. Não suporto gente racista e ignorante!

terça-feira, julho 10, 2007

No help needed

Eu não gosto de ajudar inválidos na rua por duas razões: a primeira é que geralmente eles são muito orgulhosos e preferem desenrascar-se sozinhos - se fosse comigo faria a mesma coisa; e a segunda, porque nunca sei se a minha ajuda é necessária ou mesmo oportuna.
Sinto-me bem à vontade nestes assuntos porque já desempenhei as funções de socorrista num Lar em que tive que cuidar de indivíduos com as mais variadas limitações. Conversei com muitos e fiquei a entender que a única coisa que eles desejam é serem tratados como iguais, doa o que doer...
Hoje tomei uma rara iniciativa de voluntarismo generoso e altruísta apenas para descobrir que também eu (de vez em quando) posso ser mais um grande chato que anda na rua com um "coitadinho" na boca.
Ao ver uma invisual em rota de colisão com um Jipe (estacionado), peguei-lhe no braço, disse-lhe "desculpe, vá mais para esquerda"; ela disse-me que era a direcção desejada porque queria atravessar a rua; eu disse-lhe que ela ía de encontro a um automóvel; ela (ar enfastiado) apontou para a sua bengala; eu percebi que a minha presença não era necessária e que estava a ser inoportuno e chato e disse-lhe "desculpe" e continuei o meu caminho.
No meio disto tudo acho que devo ter dado uma volta de 180º com ela quando a ajudei, porque o sentido da sua marcha agora era exactamente o contrário. Mas já não tinha coragem de a "ajudar" outra vez. Ela perceberia, eventualmente, quando chegasse ao ponto de partida.
Tão depressa não ajudo mais ninguém. Corro o risco de levar com uma estocada de uma bengala retráctil.

Nota final: eu gostaria de ter intitulado este texto de Cabra Cega (jogo), mas receei que fosse mal interpretado.

segunda-feira, julho 09, 2007

Bored itself to death

A razão porque o Live Aid continua a ser o concerto (ou conjunto de concertos) mais memorável neste género de iniciativas, tem uma razão muito simples: cumpriu a sua função!
Toda a gente sabia qual o objectivo da angariação de fundos e das diversas vontades humanas, não foi necessário uma extensa e detalhada explicação.
Quando me lembro do Live Aid, lembro-me da espectacular música e do primeiro movimento de massas contra a fome (na Etiópia); Quando me lembro do Live 8 e agora deste Live Earth, lembro-me de... nada!
Sinceramente, eu não estou interessado em ouvir longas palestras de modelos femininos e apresentadores de concursos sobre estes tópicos que tanto afligem o mundo. Eu percebo a mensagem mas quero ouvir a música que a transporta.
Odeio dobragens, mas isto que fazem agora chega a ser pior. Talvez um dia até juntem as duas coisas: dobrem as poucas músicas que emitirem para português enquanto preenchem o resto do tempo (a maior parte de preferência) com perguntas aos concorrentes do último Reality Show sobre os seus sentimentos acerca do mundo e quais os seus desejos para o futuro.
Podem-me dizer que passarão os concertos mais tarde, na íntegra, mas a piada está exactamente no facto de ser em directo e de ser ao vivo. Observar um fenómeno destas dimensões, em directo, gera uma unificação global, uma empatia, um sentimento, difíceis de replicar se o fenómeno for em diferido. Talvez quem goste de futebol perceba melhor o conceito; Ou mesmo quem goste de se manter actualizado em tempo real...
Continuem a tratar as massas como crianças, a que têm que explicar tudo, e é isso que irão ter no futuro. Isso ou uma massa disforme, amorfa e apática, ligada electronicamente ao mundo, com um lapso de tempo significativo para que caibam lá todas as opiniões irrelevantes, e depois, no caso de poderem existir interferências, dobrem-nas e legendem-nas.

Sal debaixo do tapete

Gostava de saber o que significa e quem raio é que me obrigou a quebrar a minha rotina de só limpar debaixo do tapete de mês a mês.
Ouvi dizer que é feitiçaria - o que me é completamente indiferente. Este pessoal devia escolher melhor as "almas" ingénuas a quem desejam mal.
Mas ainda bem que me escolheram a mim que sou completamente impermeável a estas merdas, agora só tenho que descobrir quem foi (tenho as minhas suspeitas) e vou provocar-lhe(s) o maior susto que já apanharam: só preciso de arranjar uma galinha morta com penas, giz, velas e um saquinho com merdas tipo cabelos, unhas, etc.
Apesar de não acreditar nestas coisas, já me tenho divertido com pacóvios que acreditam. Já chegaram ao cúmulo de dizerem que eu tinha poderes só porque organizei uma sessão espírita numa casa com madeiras velhas que rangiam.
Não é a merda da feitiçaria que me irrita, é a intenção e a atitude cobarde.

Vozes intolerantes

As únicas vozes intolerantes e xenófobas que suporto ouvir (ler) são as dos meus amigos. Eu sei que eles brincam ou que, mesmo a sério, seriam incapazes de actos de intolerância.
São todas as outras vozes que me incomodam porque não as conheço e não sei do que são capazes.
O ideal seria que não houvessem vozes deste género, mas a liberdade de expressão obriga-nos a tolerar todas as ideias, mesmo aquelas que não nos toleram.

terça-feira, julho 03, 2007

Carta de desamor

Exercício pedido no Workshop de Escrita Criativa do Corte Inglês; O objectivo era escrever uma carta de desamor (ao contrário de uma de amor o propósito desta é terminar uma relação):

Aeroporto de Lisboa, 29 de Junho de 2007

Querida Nini,

Quando receberes esta carta já estarei nos braços da minha nova noiva na Tailândia, onde também o nosso amor começou.

Uma vez que não tenho conseguido falar contigo nestes últimos dias para pôr cobro à nossa relação – devias comunicar à tua secretária que eu sou teu marido porque ela nunca me deixa entrar no teu gabinete -, escolho este método pouco elegante para te transmitir a saturação e cansaço em que me encontro e que me levou a esta decisão.

Se no início a nossa relação foi igual a tantas outras também especiais e únicas, lá para o meio fiquei com a sensação que talvez estivesse enganado quanto à singularidade desta. O facto de passadas duas semanas do início do nosso casamento tu quereres dar mais “cor” á nossa vida sexual pareceu-me estranho. Felizmente, o nosso simpático conselheiro matrimonial fez questão em realçar que nos tempos que correm, qualquer mudança de ritmo e acréscimo de diversidade no matrimónio são sempre saudáveis e desejáveis. Ainda bem que mais tarde nesse dia acabámos por encontrá-lo na sessão de Swing; acho que ficaria com ciúmes se fosse qualquer outro homem. Teria sido uma noite perfeita se a esposa dele não tivesse ficado em casa doente. De facto a nossa relação parecia cair, mais e mais - segundo tu disseste, e muito bem! – numa rotina de sexo e carinho despropositados da minha parte. O conformismo instalava-se sem eu dar por isso…

O distanciamento da tua parte nas restantes duas semanas seguintes foi bem capaz de ter sido resultado das minhas obsessivas investidas amorosas. E por isso me culpabilizo.

Como te amei muito, todo o dinheiro que gastaste da nossa conta conjunta e investiste no teu negócio da SexShop e as nossas acções da Portugal Telecom que vendeste oportunamente e te permitiram comprar um Mercedes para as tuas deslocações e as jóias e roupas para a tua apresentação digna aos clientes que lá têm ido a casa à noite, foi um investimento apaixonado e, como tal, a fundo perdido. Não espero, nem desejo, que me devolvas um centavo.

Infelizmente, eu não me senti satisfeito com a falta da tua presença e, correndo o risco de ser um sacana egoísta e traidor, comecei a consultar o mesmo site onde te conheci (www.dirtythaigirls.com); o que me levou a conhecer uma mulher compreensiva da minha situação e muito querida. Tão querida que se ofereceu logo para me confortar e se juntar a mim em novo matrimónio. Penso que eu fui muito injusto e exigente para contigo, mas agora vou tentar emendar-me e não cometerei os mesmos erros graças á tua boa graça, sabedoria e paciência. Ensinaste-me muito.

Tratei de todas as papeladas em relação aos nossos haveres – teus agora minha querida.

Tem uma vida feliz. Nunca te esquecerei.

O teu primeiro amor, Tóninho

segunda-feira, julho 02, 2007

Um imenso Portugal

Ontem foi um dia de amena pacatez.
Eu, o João, a Maria e mais três amigos (que pedem anonimato por razões do foro criminal) passámos uma boa parte da tarde sentados na esplanada da Sul América.
Gostava de poder dizer que este convívio foi divertido, mas infelizmente deu na gana de quase toda a gente, menos a mim e à Maria, iniciarem uma longa e aborrecida conversa sobre direito e equipamento social.
Enquanto eu bocejava e a minha sobrinha contava quantos guardanapos conseguia introduzir no bolso do pai sem ele dar por isso, uma voz com sotaque brasileiro começou a fazer-se ouvir num registo que apagava todas as outras.
A pouco e pouco começámos a perceber o conteúdo que esta voz estridente transportava, e, surpresa das surpresas, era uma mensagem muito pouco simpática de Portugal e dos seus nativos.
Ninguém na nossa mesa possuía qualquer ideologia de direita, mas é um facto que ficámos irritados.
Dizem as regras da boa educação que os convidados têm o direito de não gostar dos anfitriões, mas que demonstrá-lo enquanto nessa condição é de muito mau gosto.
Já não sei porquê, mas o João tinha a viola com ele. Para nosso grande espanto ele pôs-se de pé e começou a dedilhá-la.
Abro aqui uma nota para explicar que o que se passou a seguir só se deve a muitos anos de convívio, grande amizade e muito em comum.
Quando o João começou a tocar olhou para mim e eu percebi...
Levantei-me também. Ele tocava e eu cantava enquanto nos passeávamos pela esplanada. Toda a gente olhava com um ar de interrogação e alguma reserva. Parámos à frente do brasileiro.

"Ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal; Ainda vai tornar-se um imenso Portugal"

Tornou-se imediatamente evidente para o brazuca que não tinha forma de sair graciosamente daquela situação.
Quando acabámos, triunfantes, toda a esplanada aplaudiu, apesar da minha horrenda voz. A nossa mensagem tinha vencido pela poesia a má educação do nosso patrício.
Não passou muito tempo até que o sujeito se fosse embora, cabisbaixo; derrotado pela sua própria cultura.

Infelizmente a história é inventada porque ninguém se lembrou de responder ao brasileiro desta forma.