quarta-feira, abril 04, 2007

Isto não é sobre o Rambo

Um filme perfeito é igual a qualquer outra coisa perfeita. Não nos cansamos de a sentir.
Dez ou cem experiências, é indiferente. Por cada vez que resolvemos usar os sentidos para sermos hipnotizados pela harmonia da perfeição, apercebemo-nos de novos significados e sentidos. Novas perspectivas.
A perfeição, no entanto, só existe em bruto e na novidade da primeira vez. O sentimento é tão imersivo e avassalador, que para a nossa rudimentar razão e extremidades sensoriais é o suficiente para, finalmente, usar esse conceito tão absurdo e empoeirado.
Quando finalmente percebemos que essa ideia do completo e harmonioso não existe realmente, é tarde demais. Já fomos apanhados, fisgados, encurralados para sempre na ideia do ideal.
Quantas mais vezes sentimos aquilo que outrora chamamos de perfeito, mais pormenores imperfeitos encontramos.
Começamos a amar duas coisas: o início e a ideia de que o bom não é bom se não tiver uma boa pitada de mau..
Como no sexo, em que nos aguentamos até não podermos mais e tentamos fazê-lo com quem sentimos o máximo de atracção possível, nos filmes resistimos à repetição barata e banal que destrói a nossa percepção inicial, e quando, finalmente, repetimos a experiência, reunimos as melhores circunstâncias possíveis para de alguma forma compensar em intensidade a ausência do choque inicial.
Os nossos filmes favoritos possuem momentos que não nos cansamos de repetir. São momentos sublimes que tentamos prolongar para além da sua existência na película. São momentos que definem alguns de nós. Outras vezes são momentos que procuramos na vida real, momentos que passam a ser as nossas dioptrias perante a vida. Mudam o nosso ponto de vista e a nossa atitude ao dia-a-dia.
Também existe um FIM. E neste, tanto religiosos como ateus estão unidos na mesma preferência: a narrativa aberta.
O critério de cada imaginação.
O FIM é o começo do sonho de cada um; No FIM acaba a transmissão da mensagem que vamos passar uma vida a tentar descodificar; Depois do FIM retomamos a nossa existência onde a tinhamos deixado, mas agora, com um vislumbre do sagrado, começamos a impor, lentamente, um ritmo diferente ao MEIO.
Suspeito que lá para o fim da minha vida vou começar a dar um valor superior ao INÍCIO.